Texto original em inglês: http://www.dailymail.co.uk/femail/article-1168182/Catfights-handbags-tears-toilets-When-producer-launched-women-TV-company-thought-shed-kissed-goodbye-conflict-.html
Nota: Não gostei das versões traduzidas que encontrei em outros sites. Resolvi então fazer minha própria tradução (LMR).
Em um dos cantos estava Alice, uma mulher forte e independente de 27 anos que sempre dizia o que queria, não importando o quanto machucasse os outros. No outro canto, estava Sarah, uma mulher de trinta e tantos anos que conseguia defender a si mesma momentaneamente – para depois explodir em lágrimas e correr para o banheiro.
A briga durou horas, alimentada por espectadoras tomando partido de uma ou de outra, e jogando mais lenha na fogueira. De vez em quando alguma das garotas entrava na briga, tanto atacando quanto se espremendo defensivamente no banheiro. Sei que a descrição parece apenas uma cena de um show de mau gosto do tipo Big Brother, mas a verdade é bem mais simples: é a descrição de apenas uma manhã normal no meu escritório.
Essas mulheres venenosas deveriam, supostamente, ser empregadas talentosas que eu descobri para atingir o meu sonho utópico: uma companhia só com mulheres que trabalhariam felizes e harmoniosamente, sem a presença dos homens.
Foi um ideal que rapidamente se desfez frente à realidade: briguinhas constantes, hormônios à flor da pele, dramas, brigas por atenção e uma disputa estética (fashion rivalry) tão dura que literalmente destruiu minha equipe.
Quando eu li outro dia que a atriz Sienna Miller disse não existir essa tal coisa de “irmandade feminina” (sisterhood), eu entendi perfeitamente o que ela queria dizer.
É compreensível que as pessoas tendam a acreditar que as mulheres se ajudam. Com os homens no poder tanto no ambiente de trabalho quanto na política, faz sentido que nós, mulheres, nos ajudemos.
Na verdade, existiu uma época em que eu acreditei nessa tal "irmandade feminina" – mas isso foi antes que um grupo de mulheres em conflito levasse à minha ruína emocional e financeira.
- Introdução -
Cinco anos atrás eu estava trabalhando como produtora executiva, fazendo shows para canais como a MTV e morando em Los Angeles. Soa como o emprego dos sonhos. E seria.... se eu fosse homem.
Trabalhar na TV é notoriamente difícil para as mulheres. São verdadeiros "Clubes do Bolinha" onde existe uma poderosa rede entre os homens, bem como todo um sistema sutil - e injusto - que impede certos tipos de pessoas (como as mulheres) de chegarem ao topo (glass ceiling). Some-se a isso o fato de que a maioria dos chefes são homens misóginos.
Gradualmente, o que começou como um simples sonho, tornou-se um conceito excitante: “não seria ótimo se não houvesse homens onde eu trabalho?”. Decidi então criar a primeira produtora formada somente por mulheres, onde elas - inteligentes, espertas e orientadas à carreira profissional - poderiam trabalhar harmoniosamente e livres da fanfarronice masculina.
Vendo agora, eu deveria ter aprendido com os erros do meu passado. No ensino médio eu sofri bullying por parte de um bando de garotas irritantes e bocas-sujas, portanto eu não poderia dizer que não sabia o quão desagradáveis mulheres podem ser. E trabalhando na TV, conheci legiões de mulheres supercompetitivas e interesseiras que fariam qualquer coisa para chegar ao topo. Ainda assim, eu dizia a mim mesma que, com as mulheres certas, o trabalho poderia ser maravilhoso.
Então, em abril de 2005, eu deixei meu emprego, coloquei minha casa na hipoteca - conseguindo algo próximo de cem mil libras - e comecei a me pagar mensalmente um salário de apenas setecentas libras, como forma de conseguir erguer o meu sonho. Com doze anos de trabalho árduo na área, muita experiência e uma boa reputação, o que poderia dar errado?
Escolhendo minhas batalhas
Eu organizei uma equipe com sete membros e montei um escritório em Richmond upon Thames, Surrey. Apesar das mulheres que entrevistei ficarem entusiasmadas com o conceito, ainda assim elas insistiram em receber altos salários. "Muito justo", eu pensei na época – eu já havia trabalhado com elas antes, são profissionais, e muitas delas são talentosas.
Mas, com apenas uma semana, dois grupos foram formados: aquelas que já trabalharam juntas e aquelas que produziam “novas ideias”.
Normalmente havia intervalos - hora em que algumas eram convidadas para o almoço ou uma parada para o café - e outras deixadas de fora. Nada explícito era dito, porém a rejeição era óbvia.
Quando íamos todas juntas ao bar após o trabalho, as divisões se mantinham, vistas claramente de acordo com a posição em que se sentavam à mesa e de acordo com quem tinha (ou não) um comportamento civilizado.
A moda foi um grande gerador de intrigas, num campo de batalha em que era cada uma por si. Apesar de soar como um tremendo clichê, o que cada uma vestia se tornou uma fonte inesgotável de comentários maliciosos. Havia frases maldosas sobre como algumas exageravam nas roupas, e até sobre a qualidade do bronzeamento artificial de outras.
Sentia-me triste com qualquer uma que aparecia, ingenuamente, com um novo conjunto no escritório, porque todas iriam elogiar o vestido na frente da garota - para depois criticá-la duramente pelas costas. Isso acontecia com todas, sem exceções.
A segunda na linha de comando, Sarah, a gerente geral, mostrou o quanto conhecer sobre moda importava para ela: ao procurar por uma assistente, recusou-se a contratar a mais bem-qualificada da seleção... tudo porque ela não sabia distinguir um
Missoni de um
Marc Jacobs. E a garota iria somente fazer café e realizar pequenas tarefas. Eu não questionei a decisão dela, porque eu criei uma política de escolher meus conflitos com cuidado.
O escritório parecia um desfile de moda de Milão, incluindo a competitividade de uma edição da Miss Universo – mas que envolvia golpes sujos dignos de um conflito entre trapaceiros.
Uma briguinha dessas terminou com a amizade de duas funcionárias, quando Sarah e nossa jovem pesquisadora de desenvolvimento receberam, ambas, o mesmo presente de Natal – uma bolsa Chloe Paddington de 900 libras. Quando elas apareceram com o mesmo modelo de bolsa no escritório, foi como um duelo ao nascer do sol. Elas fizeram força para se cumprimentarem, mas o relacionamento nunca se recuperou - às custas da minha empresa.
Outra ocasião, quando duas garotas da equipe compraram o mesmo jeans, uma declarou: “Ele fica melhor em mim, já que eu visto 46 e ela 48.”
Não demorou muito para o escritório ficar dividido entre as mulheres que usavam ou não maquiagem. As primeiras faziam comentários do tipo “será que elas não sabem o que é creme?” ou “será que algum dia elas já usaram escova para cabelo?”. A turma que não usava maquiagem era da mesma forma sarcástica, com comentários (pelas costas, claro) do tipo “o pessoal no ônibus deve achar que ela é uma prostituta”, ou “ela parece uma drogada”.
A obsessão com a aparência significava que toda a equipe estava permanentemente de dieta. Se eu comprasse um sanduíche de atum para o almoço, ouvia pelas costas comentários que eu estava gorda como uma porca – mesmo que o meu manequim seja 48.
Duas das garotas mais magras costumavam falar sobre a garota mais gorda: “eu me mataria se ficasse tão gorda assim.” Uma das assistentes vingou-se ao fingir comprar, por semanas, comida livre de gordura… quando na verdade era comida normal - com gordura.
As empregadas consideravam aceitável faltar ao trabalho para fazer tratamentos de beleza – e não compensavam depois. Uma garota chegava constantemente atrasada porque ela estava pintando os cabelos, e quando mencionei isso ela explodiu de raiva. Mas ela pelo menos tinha uma boa razão para os atrasos. As demais soltavam a desculpa esfarrapada do horário do trem, caso eu apontasse para o relógio cobrando o atraso.
Vendo as coisas agora eu percebo que deveria ter sido mais severa. Meu idealismo foi o motivo da minha ruína, já que eu tentei ver o melhor nas pessoas – eu estava convencida de que elas iriam se comportar do jeito que fossem tratadas, portanto eu tratava todas bem.
Comentários sarcásticos
Se eu tivesse sido mais cínica eu teria sido mais bem-sucedida.
Normalmente eu ficava fora do escritório tentando conseguir contratos, enquanto que por lá o trabalho ficava em segundo plano. Primeiro, havia as conversas sobe compras, namorados e dietas – e imaginem só, comentários sarcásticos das minhas duas pesquisadoras de desenvolvimento contra outra garota da equipe, a Natasha.
Seis meses depois da criação da companhia, as tensões chegaram ao máximo quando uma das pesquisadoras pegou o laptop da Natasha e se recusou a devolvê-lo. Nesse dia eu fui forçada a cancelar meus compromissos e voltar para o escritório para tentar resolver a questão. Apesar de Sarah, minha gerente geral, estar presente, ela se recusou a se envolver porque ela não queria bancar a “policial má”.
Mesmo estando no comando, ela tinha medo do que iam falar dela – era como se, num ambiente só de mulheres, elas não conseguissem fazer apenas os trabalhos de seus cargos - mantendo assim uma atitude profissional.
Logo, discussões se tornaram uma rotina. Começavam com frases sarcásticas entre duas pessoas e, à medida em que as demais entravam na discussão, a emoção e a raiva cresciam até o ponto de explodir em gritos e xingamentos - o que sempre deixava alguém chorando. Daí, o grupo de amigas da garota ofendida iria consolá-la no banheiro, deixando o outro grupo no escritório. Após isso, ambos iriam falar mal um do outro abertamente – e nenhum trabalho iria ser feito.
Chegou ao ponto em que tive de escrever um manual para a equipe sobre como se portar no ambiente de trabalho. O principal conselho era ser respeitável e tratar as pessoas igualmente bem – e anotar recados corretamente, sendo eles para mim ou para qualquer outra das garotas da equipe. Eu também deixei claro que não haveria mais críticas e fofocas no escritório. Apesar de todas lerem e terem adorado a ideia, não prática não fez a menor diferença.
Muitas eram agressivas, defensivas - ou ambos. A mais agressiva escondia um mar de inseguranças com sua natureza enérgica, enquanto que as defensivas só reagiam se provocadas. O pior tipo que encontrei foi a "passivo-agressiva" - ela não parecia má, mas conseguia te colocar pra baixo de uma forma tão doce e dissimulada que você não percebia o que tinha acontecido até muito tempo depois.
Corações Partidos
As funcionárias escondiam seus xingamentos com eufemismos – uma disse à outra de forma doce que “eu não quero parecer uma babaca, mas simplesmente não suporto ficar na mesma sala e respirar o mesmo ar que você.”
Mas a maior força não eram os tipos de personalidade em questão, eram os hormônios. Quando uma das mulheres começou o tratamento para Fertilização in Vitro (IVF), ela soltava sua raiva sem mais nem menos e sem desculpas.
Quando uma das garotas estava de TPM (o que, num escritório formado só por mulheres, era algo que acontecia com muita frequência) o comportamento irritadiço de uma passava rapidamente para as outras, como que por osmose.
Mas os hormônios vinham em segundo lugar nas desculpas para faltas e mau humor, perdendo somente para os problemas na vida amorosa. Quando uma delas terminou com seu namorado, ela me disse abertamente via e-mail que eu deveria ser "super-compreensiva e sensível em relação a ela no trabalho". Uma verdadeira rainha do drama, o chororô durou por uma semana. Naturalmente, as inimigas dela no escritório se deliciaram com o seu coração partido.
Outra garota, que tinha dois relacionamentos ao mesmo tempo, frequentemente instruía todo mundo no escritório sobre o que dizer para cada um dos amantes caso eles ligassem para lá.
Outra das garotas tinha um apetite sexual voraz, e, num ambiente só com mulheres, não via problemas em falar em alto e bom som todos detalhes das suas maratonas sexuais. Isso em um escritório sem divisórias. Eu recebia queixas constantes sobre a linguagem crua que ela usava.
Eu ainda consigo me lembrar do nome de todos os parceiros e casos das garotas da minha equipe, uma vez que eles interferiam diretamente no trabalho.
Apesar de tudo isso, a empresa de alguma forma estava prosperando.
Conseguimos a produção de dois programas, um para a ITV e uma série com a Living TV, então pude abrir um novo escritório em West London.
Mas isso gerou outra briga com a Sarah quando ela descobriu que estava pagando estacionamento - enquanto uma das garotas tinha conseguido uma vaga de graça no prédio. Durante um bate-boca entre elas, Sarah disse que ela havia passado por cima da sua autoridade, enquanto a outra disse que ela era ‘difícil’. As duas nunca mais voltaram a se falar.
Os efeitos da falta de testosterona no ambiente de trabalho foram ainda mais evidentes quando eu tive de contratar temporariamente dois diretores para trabalhar numa série (os operadores de câmera eram normalmente homens devido ao peso do equipamento). A equipe ficou surpreendentemente mais quieta, trabalhou melhor e reclamou menos – parcialmente porque elas estavam muito ocupadas flertando com os diretores.
Duas das garotas começaram a dar em cima de um dos diretores abertamente – mesmo sabendo que ele já tinha uma namorada. Como não tinha como competir com tanto flerte e assédio, acabou sendo substituída por uma que conseguiu conquistar a afeição do diretor.
Quando nós tínhamos reuniões com homens, a equipe se tornava agressiva, cada uma delas tentando provar que era a mais sexy na sala. Com um encarregado do Canal 4, uma delas disse “veja isso!”, e então ela colocou as mãos dentro do sutiã e tocou nos mamilos. Tanto eu quanto o encarregado ficamos sem saber o que falar.
Nesse clima, eu não tinha coragem de contratar nenhum homem. Além da distração que poderiam causar, tudo poderia ficar pior ainda com as brigas que eles eventualmente poderiam desencadear na equipe. Odeio o quanto isso soa como estereótipo, mas essa é a verdade.
E mesmo que eu ainda sustente o conceito de excluir os homens como empregados - devido a todas as facilidades que eles têm na TV - se eu fosse começar tudo de novo, eu definitivamente empregaria homens. Na verdade, eu empregaria somente homens.
Com cerca de meio milhão de libras no nosso primeiro ano, o que deveria ser lucro acabou sendo todo devorado devido aos altos salários e aos erros de contabilidade da equipe. Quando começamos a ter problemas no fluxo de caixa, Sarah pediu licença médica - causada por stress - de um mês. Também confessou que vinha fugindo de ligações de pessoas que estavam esperando pagamento, arruinando a reputação da firma.
Nessa altura eu estava viajando constantemente entre Inglaterra e EUA, lidando com uma equipe em frangalhos em Londres e produtoras aparvalhadas em Los Angeles. A minha gerente geral tinha sumido do mapa, as contas não estavam sendo pagas e a tensão no escritório era palpável.
Tive de vender meus dois carros para colocar dinheiro no negócio. Entretanto, foi tarde demais e o escritório foi à falência em março de 2007, menos de dois anos após ter sido aberto.
Não posso absolver-me da culpa pelo acontecido. Porém, acredito que o escritório foi arruinado pela inveja destrutiva e brigas constantes em uma equipe composta só de mulheres. Seu egoísmo e suas inseguranças levaram minha empresa à bancarrota. Quando eu precisei da assim chamada irmandade feminina, podem acreditar, ela não estava lá.